Cronica do dia a dia: O Assistido

Crônica do dia a dia

Este aconteceu em 2012.
Era domingo de manhã, e eu me dirigi ao Centro Espírita Atualpa, em Brasília, para ministrar palestra aos assistidos daquele dia.
Logo ao chegar ao estacionamento interno, vi que havia um possível assistido sentado na escada lateral, logo na entrada, cantando. Àquela hora da manhã, e ele entoava feliz a sua trilha sonora:
– Eu não vou negar que sou louco por você. Tô maluco pra te ver, eu não vou negáááááááááaá´…
Seguia, a plenos pulmões.
Achei graça naquilo, e segui em frente.
Entrei na sala, vários assistidos me acompanharam e, então, comecei minha preleção, sobre um tema delicado: desapego dos bens terrenos.
Considerei difícil abordar aquele tema para um público que estava ali para ser assistido, exatamente porque carecia de bens terrenos, mas, enfim, sempre temos o que aprender. E, com a ajuda da Espiritualidade Maior, segui em frente.
Só que, a partir de um dado momento, minha fala foi sendo dificultada: nosso cantor matutino posicionou-se exatamente na janela da sala onde eu falava, e ali ficou: rindo, conversando com quem passava, e nada de entrar na sala!…
Convidei-o a entrar e se juntar ao grupo, mas ele se recusou, informando-me que não gostava muito de palestras.
Segui em frente com a conversa sobre a necessidade de nos desapegarmos dos bens materiais, porque o dinheiro não compra tudo nessa vida, até o momento em que nosso ouvinte-cantor, já mais quieto e interessado no que eu falava, mesmo que ainda do lado de fora da sala, lançou-me a frase arrasa-quarteirão:
– Eu não acho nada disso não, moça! Se eu tivesse dinheiro, eu comprava era tudo! Comprava amor, comprava saúde, até bonito eu ficava!!!
Em resposta ao olhar inquiridor que me foi lançado, por toda minha turma de espectadores, depois dessa revelação feita, comecei a construção, que, sem dúvida alguma, me veio por pura inspiração…
– Qual é o seu nome?
E ele me falou.
Então eu disse a ele:
– Você gosta de música sertaneja?
E ele:
– Sim, eu gosto.
E eu:
– E do Leonardo, você gosta?
Ele:
– Sim, eu gosto.
E eu:
– Pois você sabia que o Leonardo tinha um irmão, que cantava com ele?
E meu interlocutor:
– Eu sei. Era o Leandro, mas ele morreu de câncer de célebro…
Então eu concluí o diálogo, que, sei, mais que intuído:
– E você não acha que, se tivesse como, o Leonardo teria comprado o que fosse preciso, para salvar a vida do irmão dele?…
Meu caro assistido ficou me olhando uns segundos… abaixou-se, pegou o saco branco que havia deixado no chão e resolveu, enfim, entrar na sala, onde reinava silêncio total.
A aula continuou normalmente dali, com todos bastante interessados no tema, rindo e conversando.
Terminei a palestra daquele domingo e fui para casa, pensando em como, afinal de contas, todos nós temos tanto a aprender com fatos como esse, tão simples, do nosso cotidiano, mas que dinheiro nenhum do mundo pode pagar!…

Patrícia Mendes

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Uma resposta para Cronica do dia a dia: O Assistido

  1. Lucinda disse:

    Amei o texto, Patricia. Realmente como aprendemos com os fatos simples da vida… assim como esses. Obrigada pelo exemplo. Bjs.

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