Aborto – Uma visão Filosófica

aborto

[Fonte: Portal Ariquemes]

Primeiramente importante ressaltar que não abordaremos o tema somente na visão espírita. Abordar esse tema tão complexo, sensível, importante, somente com a visão religiosa é perigoso, pois podemos cometer os mesmos erros de outras religiões.

Para se ter uma idéia de quão complexo é o tema, que agora abordaremos de forma simples, poderíamos discuti-lo sob as óticas: Filosófica, Religiosa, Espírita, Científica, Médica, Biológica, Moral, Ética, Legal, Saúde Pública, Cultural, Social, Liberdade Feminina de fazer o que quiser com seu corpo, Perpetuação da Espécie, Controle Populacional, etc. 

Porém agora veremos o que acredito, deveria ser o ponto de partida para discutir o tema: a ótica Filosófica. 

Segundo ponto, podemos discutir esse tema além da religião no Centro Espírita? Não só podemos como temos a obrigação. A Doutrina Espírita é Ciência, Filosofia e Religião, então todos os temas devem ser discutidos pelos 3 pontos de vista, e sem preconceitos.

Mas para mim ficava uma pergunta: Por quê o tema Aborto é tão polêmico? Por quê discute-se esse tema há décadas, séculos, e ainda não existe um consenso? Por quê o mundo todo é tão divido? Questões que até pouco tempo não tinha resposta.

Acredito que seja por dois motivos: primeiro relacionado a uma das mais básicas Leis da Vida, que move todos os seres vivos da planeta. A perpetuação da espécie, afinal de contas, esse é objetivo primário da reprodução. Todas as espécies que hoje existem no planeta, somente estão aqui devido a sua reprodução, se uma espécie para de se reproduzir ela desaparece mais cedo ou mais tarde.

O segundo diz respeito ao ser humano, reflexo dos milênios de evolução e o desenvolvimento da inteligência. A dificuldade de medir a proporção do direito da mãe em relação ao da criança que ainda não nasceu.

Inclusive a própria origem da palavra aborto tem esse sentido. Aborto vem do latim abortus, que, por sua vez, deriva do termo aboriri, ou aborior, onde ab(“distanciamento”) e oriri (“nascer, sugir, aparecer”). Este conceito é usado para fazer referência ao oposto de oriri, isto é, o contrário de nascer.

O conceito oficial hoje é: Interrupção da gravidez pela morte do feto ou embrião. Esse conceito foi simplificado para fins didáticos, pois cada país ou área da ciência adota algumas particularidades sobre o período da gestação ou peso do feto. Para exemplificar essa particularidade, na medicina somente é considerado aborto oficialmente a interrupção de gravidez até a 20ª ou 22ª semana de gestação (uma gravidez normal leva de 38 a 42 semanas), ou cujo peso do feto seja inferior a 500g, ou ainda cujo tamanho da cabeça ao calcanhar seja de até 25cm, após esses limites é oficialmente considerado óbito fetal e não mais aborto.

Porém para Código Penal Brasileiro, não existe distinção entre peso, tamanho ou idade gestacional, toda interrupção da gravidez é considerado aborto. Outros paises adotam ainda outras idades gestacionais, a mais comum é 12 semanas de idade gestacional, e para alguns qualquer interrupção da gravidez não é considerada aborto.

Outro ponto que as vezes é discutido, é que o parto seria um aborto. Não podemos confundir as coisas. Primeiro todo aborto obrigatoriamente causa a morte da criança. Segundo, o parto é o fim da gestação, seja prematura ou não.

A discussão sobre a criminalização ou legalização do aborto está cada dia mais intensa, com 2 lados opostos mais em evidência, as religiões se opondo à legalização, e o governo apoiando a legalização. Esse embate não é só no Brasil, em todo o mundo é assim, e a maior prova disso, é que em aproximadamente 40% do planeta o aborto é legalizado.

Talvez o ponto mais importante sobre a criminalização do aborto seja quando a vida começa? E é aqui que temos a maior divergência no assunto, e o mais importante é que quando chegarmos a um consenso, simplesmente terá fim a discussão. Você pode estar pensando, eu sei quando a vida começa, mas nem todo mundo pensa como você.

A ciência ainda não chegou a um consenso, e as religiões encaram de forma diferente. Para algumas religiões, a vida começa na fecundação (cristianismo, islamismo), para outras, no nascimento da criança (judaismo, xintoismo – principal religião japonesa), só para citar algumas.

Então dependendo do entendimento, a vida começa:  

  • no momento da fecundação (que acontece aproximadamente 12 a 48 horas da relação sexual) – (Cristianismo, islamismo, biologia, parte da medicina);
  • 6º ou 7º dia de gestão, quando o embrião se fixa na parede do utero (parte da medicina);
  • na 5ª semana de gestão, quando o feto apresenta um coração primitivo, mas capaz de bombear o seu próprio sangue (parte da medicina);
  • na 8ª semana de gestação, quando o sistema nervoso do feto já responde a estímulos (parte da medicina);
  • na 28ª semana de gestação, quando o feto se torna capaz de viver fora do ventre materno, pois seus órgãos já estão formados (parte da medicina);
  • após o nascimento, quando não depende mais do organismo da mãe para continuar vivo (judaísmo, xintoísmo, parte da medicina).

E qual a real importância de quando a vida começa sobre o aborto? Mais importante do que interromper a gravidez, é o  5º mandamento “NÃO MATARÁS”, mandamento presente em todas as religiões, culturas, paises e sociedades.

Dessa forma a questão do aborto gira em torno de quando começa a vida, e não na interrupção da gravidez. 

O aborto em si não é um crime, mas o assassinato de uma criança no útero materno sim. Assim o aborto só é crime se houver vida no embrião/feto, e de acordo com as várias interpretações a vida tem inicio em momentos diferentes.  

  • se for na fecundação, o aborto é proibido desde o inicio;
  • se for no nascimento, então não há problema em abortar.
  • Se começar na 8ª semana, então não seria crime abortar até a 7ª semana, e assim conforme cada interpretração.

Dai a complexidade do tema, se você acredita que a vida começa na fecundação, então o lógico é ser contra o aborto. Mas se outra pessoa acredita que a vida começa após o nascimento, então para ela não há problema em abortar. E assim a discussão não termina nunca, pois todos os lados acreditam que estão com a razão, e infelizmente não estão propensos a uma discussão mais franca, e aberta a mudança de paradigmas.

Por isso volto a dizer, enquanto a humanidade não chegar a um consenso de quando a vida começa, esse discussão nunca terá fim, e continuaremos divididos a respeito do assunto. Então talvez devessêmos mudar o foco da discussão, não vamos mais discutir o aborto, mas o inicio da vida. Paremos de discutir o problema, e vamos discutir a origem do problema.

A posição da Doutrina Espírita é clara sobre o assunto. Não endossa o aborto. Condena e compadece de quantos o provocam. A Doutrina Espírita reprova e desaconselha, por constituir prática anticristã, antiespírita, descaridosa, cruel, desumana, fria, horrenda, um assassinato, e totalmente em desacordo com as leis Divinas.

Porém existe uma exceção. É onde a morte da mãe é considerada iminente, e o aborto a única chance de preservar a sua existência. Aqui vale o esclarecimento de que a medicina hoje está muito avançada, e que são raros os casos em que não há possibilidade de sobrevivência da mãe ou da criança. 

Nesse caso a Doutrina Espírita também não recomenda o aborto, apenas considera que a decisão é da mãe e do pai. Não se trata de crime, apenas de uma decisão decisão extremamente dificil, mas que é necessária. Onde a mãe pode ter outras oportunidades de nova gestação, sem complicações, e que o reencarnante tenha melhores possibilidades, tendo uma nova chance de cumprir esse planejamento reencarnatório, mas caso a mãe desencarne, essa chance é perdida.

Também podemos pensar se caso a mãe insitir na gravidez, e venha falecer, seria suícidio? Não podemos olhar com essa visão tão simples. A fé é uma virtude que move montanhas, e temos milhares de casos registrados, onde o impossível aconteceu. Essa mãe com certeza não pensou em se suicidar, mas em um milagre, onde a vida do seu filho teria uma chance de continuar, mesmo que custasse sua vida. Mais provável que seja um sacrificio da mãe em prol do filho, do quê um suicidio.

E nós, espíritas? Qual nossa obrigação perante ao aborto? Nossa obrigação nos casos de aborto, não é condenar a mulher, mas acolhê-la e a família, pois é uma decisão dificil e que necessitará de reajuste futuramente. 

Temos que acabar com o preconceito contra as mulheres e familias que cometeram o aborto. Nossa obrigação, é acolher, dar esperança, apoio, esclarecimento, orientação, e não deixar a mullher e a familia se distanciar do Centro Espírita.

Abortar é um crime, mas longe da Doutrina Espírita, a situação dessa familia será pior. Não podemos simplesmente tirá-la dos trabalhos, deixar de falar com ela, fazer fofoca sobre suas ações. Todos nós cometemos erros, porquê os erros dos outros é pior que o nosso? Não sabemos a condição emocional daquela familia, o planejamento reencarnatório, como está o psicológico. Sabemos apenas do ato, mas não de todos os motivos que levaram a tal decisão. 

Nós somos seguidores do Amor do Cristo. Ele veio trazer a mensagem do Amor. No Centro Espírita estudamos o amor, pregamos o amor, divulgamos o amor, recebemos mensagens de amor, distribuimos mensagens de amor, fazemos a caridade, que é um ato de amor. 

O Espírito de Verdade no Evangelho Segundo o Espirtismo resumiu os ensinamentos de Jesus: “Amai-vos eis o primeiro mandamento, instrui-vos eis o segundo”. A maior mensagem que Jesus trouxe, foi amar ao próximo. Reforço, somos seguidores do Amor de Cristo, então por quê agir como seguidores da Justiça de Deus.

“Eu também não te condeno; vai e não voltes a pecar” (João, 8:11). A história do encontro de Jesus com a mulher adúltera é um exemplo. Jesus não evita os pecadores. Come com eles.

Jesus não culpa ninguém pelas suas falhas. Alivia os que se sentem oprimidos pelo peso das suas faltas e levanta-os. Não procura que os culpados sejam condenados e punidos, mas que, absolvidos, vivam uma vida nova, não esquecendo que Deus os ama. Assim, poderão aceitar-se a si próprios porque Deus os aceita.

Somente Deus e o juízes de direito tem autoridade para julgar, não nos cabe julgar alguém pelo seu ato, muito menos ter preconceito contra essas pessoas, apenas amar, apoiando, acolhendo, esclarecendo, dando esperança, carinho.

Sendo verdadeiramente Espíritas Seguidores do Amor de Cristo.

Caio Lucidio

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Uma resposta para Aborto – Uma visão Filosófica

  1. junearruda disse:

    Esse é um texto muito equilibrado, que realmente se propõe a dialogar sem preconceitos e mitos.

    Curtir

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